Liev Tolstói. Livro O reino de Deus está em vós, ou: O cristianismo apresentado não como uma doutrina mística mas como uma moral nova. Editora BestBolso, 2016, 3ª edição. Capítulo 8: "Aceitação inevitável pelos homens de nossa sociedade da doutrina da não resistência ao mal".
Aqueles que creem ser possível libertar-se por meio da violência, ou somente melhorar esta situação derrubando um governo para substituí-lo por outro, ao qual a opressão não será mais necessária, estão enganados, e seus esforços neste sentido, em vez de melhorar a situação, pioram-na. Suas tentativas fornecem ao governo um pretexto para aumentar seu poder e seu despotismo.
Mesmo admitindo que, em consequência de circunstâncias especialmente desfavoráveis ao governo, este fosse derrubado pela força, como aconteceu na França em 1870, e que o poder passasse para outras mãos, esse poder não poderia ser menos opressor porque, tendo que se defender de todos os seus inimigos desapropriados e exasperados, seria constrangido a ser até mais déspota e mais cruel do que o anterior, como ocorreu durante todos os períodos revolucionários.
Se os socialistas e comunistas consideram um mal a organização individualista e capitalista da sociedade, se os anarquistas consideram um mal qualquer organização governativa, existem monarquistas, conservadores e capitalistas que consideram um mal a organização socialista, ou comunista, e a anarquia, e cada um desses partidos não tem outro meio além da violência para fundar um regime ao qual todos sejam submetidos. Qualquer que seja o partido que triunfe, este necessita, para instituir uma nova ordem e para conservar o poder, não apenas utilizar os meios de violência consagrados como também inventar novos. Os oprimidos não serão mais os mesmos; a opressão tomará novas formas e, longe de desaparecer, se tornará mais cruel, porque a luta terá aumentado o ódio entre os homens.
Liev Tolstói. Livro O reino de Deus está em vós, ou: O cristianismo apresentado não como uma doutrina mística mas como uma moral nova. Editora BestBolso, 2016, 3ª edição. Capítulo 9: "A aceitação do conceito cristão da vida preserva os homens dos males de nossa vida pagã". Um dos mais estranhos fenômenos de nosso tempo é que a propaganda da escravidão, feita por governos que precisam dela, é também feita por partidários das teorias sociais que se consideram apóstolos da liberdade. Esses homens anunciam que a melhoria das condições de vida, o acordo entre a realidade e a consciência, ocorrerá não [gradualmente] em consequência de esforços pessoais de indivíduos isolados, mas com uma violenta reorganização da sociedade, que se produzirá por si só, não se sabe como. Dizem que não devemos caminhar para o objetivo com nossas próprias pernas, mas que é preciso esperar que se introduza sob nossos pés uma espécie de chão móvel que nos levará aonde devemos ir. Por isso, devemos permanecer parados e dirigir todos os nossos esforços para a criação desse chão imaginário. [...] E – curioso! – a inércia dos homens é tanta que aceitam essas teorias, embora todo o curso da vida, cada passo à frente, prove sua falsidade. Os homens sofrem com a opressão e lhes é aconselhado procurar, para melhorar sua situação, métodos gerais que serão aplicados pelo poder ao qual devem continuar a se submeter. É mais evidente, contudo, que desta forma nada seria feito, pois, além de aumentar a força do poder e a intensidade da opressão, nenhum outro erro dos homens afasta-os mais do objetivo a que aspiram. Fazem toda espécie de tentativas e inventam toda espécie de métodos complicados para mudar a situação, mas não fazem o que seria necessário, não usam o método mais simples, que consiste em não fazer aquilo que cria essa situação. [...] Mas os homens acham esse método [gradual] muito longo e buscam outro, que os possa libertar a todos de uma só vez. Seria como se as abelhas [de um enxame, pousadas todas num galho de árvore] achassem muito demorado desprenderem-se uma a uma e quisessem que todo o enxame levantasse voo de uma só vez. Mas isto é impossível, e enquanto a primeira, a segunda, a terceira, a centésima não abrirem as asas e voarem, todo o enxame permanecerá imóvel. Enquanto cada [pessoa] não viver isoladamente segundo sua doutrina, as novas formas de vida não se estabelecerão.